Meredith Whittaker, uma figura proeminente no debate sobre inteligência artificial (IA), desmistifica as narrativas alarmistas que têm permeado a mídia. Para ela, as preocupações de que a IA possa se voltar contra a humanidade carecem de fundamentos científicos. A presidente da Signal Foundation, responsável pelo aplicativo de mensagens criptografadas Signal, enfatiza que o verdadeiro risco reside no uso irresponsável da tecnologia, e não em uma suposta superinteligência artificial.
Whittaker exemplifica essa preocupação com um caso noticiado pela CNN, onde um chatbot utilizado pelos serviços de inteligência dos EUA teria gerado informações falsas sobre um navio chinês supostamente transportando material nuclear. Esse erro crítico quase levou a uma resposta militar dos EUA, levando Whittaker a questionar a inteligência de um sistema que pode provocar tensões internacionais com dados imprecisos. “Um sistema que fornece informações de inteligência falsas não pode ser considerado superinteligente”, afirma ela em entrevista ao BBC Global Women.
Com uma base de usuários que varia entre 40 e 70 milhões, o Signal ainda está longe do WhatsApp, que conta com cerca de 3 bilhões. No entanto, a dedicação do aplicativo à privacidade é um dos seus principais atrativos. Enquanto os governos, incluindo o britânico, buscam mais acesso às comunicações em plataformas como o Signal, Whittaker resiste a esse tipo de vigilância, afirmando que comprometer a criptografia seria um sacrifício inaceitável de princípios. “Se for necessário submeter à vigilância pessoas que confiam em nós em situações críticas, então deixaríamos de atuar naquele mercado”, declara com firmeza.
A trajetória de Whittaker no campo da tecnologia é marcada por sua oposição ao Projeto Maven, uma parceria secreta entre o Google e o Departamento de Defesa dos EUA que buscava o uso de IA em operações militares. Sua mobilização em 2018 resultou em uma paralisação de 20 mil funcionários do Google, culminando na desistência da empresa do contrato. Agora, ela vê um paralelo entre o uso de IA e incidentes trágicos, como o ataque a uma escola no Irã, que teria sido baseado em informações desatualizadas.
Embora reconheça que a tecnologia pode ser mal utilizada, Whittaker defende que ferramentas como o Signal são essenciais em contextos de vigilância estatal e ataques cibernéticos. Organizações que lutam pelos direitos das mulheres no Sul Global veem o aplicativo como um recurso vital para a segurança. “Em tempos de vigilância, o Signal é uma ferramenta de sobrevivência”, argumenta Hera Hussain, fundadora da Chayn.
Whittaker também critica a falta de apoio a startups lideradas por mulheres e encoraja novas vozes no setor de tecnologia a não se deixarem intimidar pelo machismo. “Você consegue lidar com ambientes complicados, onde nem todos serão simpáticos?”, pergunta ela, instigando a reflexão sobre a coragem necessária para prosperar em um campo desafiador.
Com sua postura firme e princípios inabaláveis, Whittaker continua a ser uma voz influente em um debate que moldará o futuro da tecnologia e o impacto das decisões éticas em nossa sociedade.


